quarta-feira, 11 de abril de 2012

A rosa

A rosa fez História. Chegou, viu e venceu.
A rosa passou a ter maior expressão do que o punho fechado e o Partido Socialista passou a ser vulgarmente designado como o “partido da rosa”.
Sopravam ventos de mudança e o objetivo era a renovação aliada a uma imensa necessidade de atenuar a forte conotação de esquerda que o punho imprimia ao partido.
Estavam lançados os dados e os jogadores tomavam os seus lugares, um após outro, conscientemente…
Há anos que se adivinhava o inevitável. O circo anunciava a nova era do Partido Socialista. Os acrobatas recém-chegados subiam ao palco e executavam, com perfeição, novas formas de equilibrismo. O povo aplaudia, com fervor, as façanhas dos petizes, jovens ávidos de sucesso fácil e costas bem aconchegadas.
Formaram-se jovens em várias áreas do saber político, autênticas licenciaturas em “Salto em trampolim” e cultivou-se, de forma irrepreensível, a arte do bem saber viver. Os socialistas rosa puderam saborear uma das maiores vitórias de sempre…o resto, nós conhecemos, nós experienciámos, nós sentimos na pele.
Quase duas décadas depois, aqui estamos, pobres portugueses, partidariamente desamparados, politicamente enganados, económica e socialmente demolidos. Como tão bem diz Pessoa, falta cumprir-se Portugal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Terça-feira à tarde


Três e meia da tarde. Já não iria sair de casa, o trabalho que me esperava era intenso, por isso resolvi pôr o carro na garagem. Despi o casaco, descalcei-me, tirei um café, acendi um pau de incenso e preparei-me para iniciar uma tarde de luta. O aroma quente da sala era agora acolhedor, propício à reflexão e à concentração.
Não obstante, senti que me faltava algo. Claro, o telemóvel ali mesmo ao meu lado, como é hábito quando a miúda anda em viagem. Ela tinha saído para Tomar havia dez minutos. Do aparelho nem sombras! Marquei o número a partir do fixo. Ouvi o sinal de chamada, do outro lado, mas decididamente não estava em casa. O telefone tocou. “O teu telemóvel não pára de tocar, deixaste-o cá. Se quiseres o pai leva-to ao fim da tarde, quando chegar”. “Que chatice, mãe, já vou aí. Não posso estar incontactável. A Inês pode precisar de alguma coisa. Não me dá jeito nenhum, mas é inevitável…”. “Lá estás tu com os teus disparates…”.
Respirei fundo. Voltei a calçar-me, a vestir o casaco, as luvas, a tirar o carro da garagem.
 A caminho da António José de Almeida constatei ter apenas gasolina para cem quilómetros. Assim sendo, iria atestar o carro. A minha mãe já estava à porta do prédio com o abençoado aparelho, o estacionamento ali é complicado, como em quase todas as áreas desta cidade que teima em crescer para dentro!
As obras no viaduto da ponte açude mantinham o trânsito a passo. Meia hora para chegar às bombas da Galp e eis senão quando vislumbro duas filas intermináveis para pagar. Apenas uma das caixas se encontrava a funcionar…
Já dentro da garagem, de regresso, fechei os olhos e tentei arrumar as ideias. Não faltava nada, desta vez. Subi. Descalcei as botas, as luvas, o casaco e entrei na sala, ao som do Coltrane. O café esfriara. Tirei outro. Abri a carteira para tirar os óculos, procurando em vão! Fiquei aterrada. Houve mesmo um momento que pensei estar a enlouquecer… Voltei a respirar fundo, tentando raciocinar. Percorri mentalmente todo o percurso efetuado e não cheguei a qualquer conclusão. Já com lágrimas nos olhos saí da sala, calcei as botas e vesti o casaco…A caixinha riu-se para mim, no banco do carro…
A cabeça doía-me quando entrei na sala. Tinha anoitecido. Até o Coltrane estava mudo. O telemóvel tocou. Era a Inês a dizer que tinha chegado!
Fixei as folhas rascunhadas à minha frente e pensei que teria feito bem melhor se tivesse esperado pelo telemóvel ao fim da tarde. Do sucedido, nem me atrevo a contar à miúda, sei a resposta de cor "Bem feito, mãe, eu já não tenho 15 anos!"

Isabel Alves Teixeira

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A crise


A crise é real…era inevitável! Há mais de uma década que os portugueses vivem de olhos vendados, à espera que o milagre aconteça. Até lá…logo se vê! O mito sebastianista está novamente na moda.

Resmunga-se, levantam-se os braços em sinal de desespero…não obstante, para tantos e mais alguns, a crise é esta!


sábado, 30 de julho de 2011

O outro lado do mar




A tarde desce deslumbrante,

sobre o mar de um azul tórrido,

macia e calma, envolvente.

O silêncio ecoa na falésia

que resiste,

ficticiamente persistente,

ao rolar do Tempo…

Lá longe, a linha do horizonte

mantém a firmeza,

mas hoje parece-me próxima,

tão próxima que vislumbro o outro lado do mar,

agora revolto

em ondas sonantes e fortes,

apelativas…


Maria Santos(26/07/11)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Um olhar sobre alguns resultados eleitorais

Ao ganhar, ontem, as eleições legislativas, o PSD ganhou também uma tremenda responsabilidade. Terá de demonstrar aos portugueses que está à altura de superar as dificuldades nacionais. Será, sem dúvida, uma dura tarefa que exigirá um pulso forte e muita transparência, para que o cidadão comum possa, também ele conscientemente, enfrentar a crua realidade dos dias maus que se avizinham. Para isso, é fundamental que Passos Coelho saiba seleccionar os que, através da sua conhecida e reconhecida experiência, o irão rodear.

O grande derrotado, o PS, terá, agora, tempo para reflectir nos erros que o levaram a tamanha derrota e passar à acção. Sócrates demitiu-se e não irá, nos tempos mais próximos, ocupar qualquer cargo no partido, o que será uma mais-valia para os socialistas e uma porta aberta para o renascer de um grande partido político cuja ideologia e valores reflectem os anseios da maioria da população nacional. É este o partido que terá de saber responder ao desafio, fazendo uma oposição credível, justa e, obviamente, construtiva.

Reflexão é, também, a palavra de ordem para o Bloco de Esquerda, partido que sofreu a segunda maior derrota destas eleições. É tempo de parar para pensar o levou o BE a esta situação. Contrariamente a Sócrates e a Rui Marques, do MEP, Francisco Louçã não tenciona demitir-se. A meu ver, um pouco mais de humildade traria benefícios ao partido. Resta aos militantes a decisão final.

Isabel Alves Teixeira

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Escolaridade não é educação

Hoje, ao fim da manhã, estacionei o carro na Cruz de Celas e fui a pé aos HUC. A meio do caminho, cruzei-me com vários jovens (homens e mulheres), que caminhavam em pequenos grupos, com livros debaixo do braço. Vinham, exactamente, dos HUC. Alunos, estagiários…? Não sei, nem isso seria caso para eu ter dado por eles, não fossem duas ou três situações que me fizeram pensar.

O pavimento do passeio da vedação da Escola Martim de Freitas está deteriorado, o que não é de espantar nesta nossa cidade. Ao deparar-me com um grupo de três raparigas que vinham na minha direcção, encostei-me ao gradeamento para que pudessem passar, não fossem elas cair no buraco mesmo no centro do passeio. Mas as damas, que vinham em linha recta, ocupando todo o espaço, continuaram a falar e a rir, avançando a passos largos. A conclusão não se fez esperar: levei um empurrão de tal forma que ainda me dói o ombro. As futuras profissionais, seja do que for, continuaram o seu caminho, sem pedirem desculpa, nem se dignaram olhar para mim.

Na rotunda, os palavrões foram uma constante, provindos das bocas delicadas dos grupos que se seguiram.

Para finalizar, já dentro do espaço dos HUC, um rapazinho passeando os seus livros e cadernos, a uns passos da entrada principal, no sentido descendente, resolveu desatar a cuspir – para não utilizar outra palavra mais adequada, mas também mais enjoativa – em direcção à relva, em andamento, como convém nestas gentes pouco dadas ao uso de lenços. Vinham duas miúdas mais atrás que desataram a rir, olhando para mim, mais propriamente da cara que eu terei feito no momento…

E aqui está a minha aprendizagem de hoje. Como profissional da Educação neste país, andarei a falhar em alguma coisa?

Estas “figuras”, com quem me cruzei hoje, são fruto de aprendizagens. Pelo menos deveriam saber-estar, dada a “elevada escolaridade” que possuem. Mas o que aprenderam estes jovens que lhes sirva para a vida?

O que vai ser deste país daqui a uns anos?

Instante Eterno

Afaga-me o toque acetinado

do canto do rouxinol,

longínquo, quase ausente,

no rosto marejado e quente

daquela tarde tórrida de Verão.

Fecho os olhos num instante eterno

e vislumbro a porta do tempo

escancarada,

solícita,

expectante.

Deixo-me deslizar

pelas fendas das arestas

das janelas do passado longínquo

e vivo momentos antigos

sepultados na memória do tempo.

Maria Santos